Monday, 23 April 2018 06:00

O PORTUGUÊS FILOSÓFICO

Gostaria de me deter brevemente sobre o caso do português. Dizia Fernando Pessoa que o português é mais apto a exprimir uma “metafísica das sensações” do que verdadeiras e próprias noções filosóficas. No entanto, Eduardo Lourenço e outros estudiosos puseram em evidência o valor conceptual da noção de saudade; mas um estudo filosófico do modo de sentir português deveria ter em consideração também as características gramaticais da língua, como a presença de um conjuntivo futuro e de um infinitivo pessoal, que faltam em muitas outras línguas, as diferenças estruturais entre ser, estar e ficar, assim como a complexidade sintáctica que faz dele a língua românica mais próxima do latim. Além disso, deveria ser objecto de estudo aquilo em que o português se tornou no Brasil. Aquele que vos fala foi editor de um número monográfico da revista de estética e de estudos culturais intitulada “Ágalma” dedicado à noção de tropicalismo brasileiro. A proposta teórica que emergiu desta investigação não seguiu na direcção do melting pot, do hibridismo ou da mestiçagem, mas ao encontro da individuação dos núcleos conceptuais típicos do tropicalismo brasileiro: estes foram individuados nas noções de cordialidade arcádico-maneirista, de altruísmo de derivação positivista e de suavidade. Ora, a suavidade é algo muito diferente da saudade: enquanto a saudade está ligada, até etimologicamente, à solidão e à recordação nostálgica do passado, a suavidade tem a mesma raiz de persuasão. Não se trata, contudo, de convencer ou de comunicar uma ideia, mas de ter uma experiência de desorientação e de suspensão. Esta experiência, suscitada pelo contacto com a natureza tropical, foi muito bem descrita por alguns poetas e escritores brasileiros. Por exemplo, diz Carlos Drummond de Andrade: “Somente a contemplação / de um mundo enorme e parado”. Ou então a escritora Clarice Lispector: “um momento grande, parado, sem nada dentro”. Tal sentir cósmico não é uma alienação, mas uma apropriação: assim, está próximo da oikeiôsis de que falavam os antigos filósofos estóicos, referindo-se justamente à relação entre o ser humano e a natureza. Nesta palavra grega (que foi traduzida em latim por conciliatio e commendatio e em italiano por attrazione) está implícito quer o aspecto afectivo da cordialidade, quer o aspecto social do altruísmo. Deste modo, a filosofia constitui uma via de acesso fundamental ao conhecimento de uma cultura. Trad. Alexandre Franco de Sá Copyright©MarioPerniola,2005

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